
Lá estávamos nós, analisando qual daquelas fotos na porta daquele restaurante iria sacear a nossa fome, de repente escutamos um arroto tão estrondoso, que até demoramos a identificar aquela pequena de avental como autora de tal estrondo. Chegamos à Hong Kong!
Foi um contraste muito grande. Saímos da plácida Kyoto e aterrisamos numa ilha chamada Koolow, centro de compras de Hong Kong, e por que não dizer do mundo?
Nosso hotel reservado via internet (naquelas roubadas que de vez em quando acontece) Era uma sala, num andar de um prédio comercial. Eles diviram o tal espaço em uns 5 ou 7 quartos e voilá, tá feito o hotel. No mesmo prédio tinha mais cinco iguais à este, pelo menos. Todos da mesma senhora que nos recebeu num escrivaninha no 13´ andar. Bem ali,no meio do corredor fomos avisados de que não teria quarto com janelas disponíveis,e que caso houvesse seria mais caro.
Nossa estadia por Hong Kong foi breve,conhecemos uns gauchos de Passo Fundo, Marcus, Mathias e Renato. Que estavam acompanhados à Denise,uma cidadã de Hong Kong, com inglês irretocavel e atividade mental intensa.Foi ótimo conversar e passear com eles,que estavam alí pelo mesmo motivo que a maioria dos estrangeiros em transito por Hong Kong:business.
Mas esta cidade tem seus pontos turísticos bem demarcados. A imagem gigante do Budah da ilha de Lantau é uma das mais populares. Mas nos embriagamos mesmo com o visual da bahia Victoria a noite, vista de baixo mesmo, da chamada Venue of Stars(Rua das estrelas). Todos os dias existe um show de luzes com transmissão pelo rádio. Todos aqueles edifícios iluminados, mudando de cor, faendo uma guerra de feixes de luz e iluminando as águas da bahia de todas as cores, piscantes, crescentes e em zig zag…Não é de embriagar?
Experimentamos sushi de jelly fish, isso mesmo sushi de água viva!Mas a idéia é infinitamente mais saborosa do que o prato em si. O Marco, meu bravo experimentador, encarou um prato digamos…-Peculiar!
Um linguine de arroz, frio, servido com pele de galinha cozida e desfiada, salpicada de gergelim e coentro. Para completar um molho de amendoim, mais para um extrato do que para molho, espesso e sem sal. Pedimos um chá verde, para ajudar a descer caso o sabor fosse de todo estranho. O chá verde era tão perfumado de jasmin que eu particularmente duvido que houvesse outra coisa alí a não ser o mais perfumado dos jasmins. Pensei ter tido mais sorte desta vez (essas escolhas por foto são uma loteria).O meu prato era arroz com uma parte do porco que mais parecia o próprio bacon agridoce,e como não identifiquei o restante do prato, mas pelo menos ele era quente, consegui comer quase a metade. Meu bravo guerreiro das arábias comeu tudo!
Mas sinceramente não sei o que nos enjoou mais,se foi o prato ou aquele pote de perfume que a moça nos serviu como chá. Saímos dali ávidos por coca-cola, ajax, soda limonada, qualquer coisa que ajudasse à descer aquele estorvo entre o estômago e a garganta. Duas voltas na quadra depois,resolvi pegar um chá verde (ficamos mal acostumados no Japão) para ajudar a digestão. Tomei o cuidado de não pegar o de jasmim. Mas não tomei o cuidado de não pegar o de crisântemo. Aaaaiiii….
Na galeria do nosso hotel tinha todo tipo de loja entre a porta e os elevadores. Tinha alfaiate, casa de câmbio, salgados indianos, sex shop e souvenirs de seda. Mas como estava chovendo, todos sem excessão vendiam gurada-chuvas.
Conhecemos também o Man Mo temple, queimando incenso suficiente para defumar gerações.Muito interessante e nublado, por tantos incensos em espiral pendurados em série e em camadas.Além dos que as pessoas que lá vão rezar, ascendem compulsoriamente. É um visual único, mas arde aos olhos.
Hong Kong é , sem medo do clichê, o encontro do oriente com o ocidente. É possível ver placas educativas sobre higiene e comportamento nos corredores do metro, e as menos amigáveis que avisam da multa se cuspir na rua ou dentro do ônibus. No MacDonald’s tem o chicken teriaki; E eles até temperam a pimenta com alguma comida….
Quando deixamos Kyoto,de volta a Narita para então deixarmos o Japão Rumo à Hong Kong sentimos que ainda há muito que se conhecer e estudar sobre o Japão. É um país muito interessante, desmistificou a imagem que tinhamos daqui.Em compensação criaram-se outras referências na nossa consciência deste lugar.
O povo é em geral, muito cordial e prestativo. A sua grande maioria não fala inglês.Mas algo nos diz que eles se comunicam bem melhor entre seus pares asiáticos.
A sensação de estar em Tokyo pode ser comparada à caminhar numa esteira rolante,tudo é tão rápido e funcional que, ao chegar em Kyoto foi aquele momento exato em que saímos da tal esteira e até a gravidade parece mais forte.Tomado cuidado para não tropeçar nessa troca de ritmos experimentamos “brincar de japonês”alugando um pequeno apartamento, com direito a panela elétrica para preparar o Goham(arroz). Já Kyoto é bem mais traditional. Por exemplo não pudemos conhecer um Onsen (casa de banho)porque tenho uma tatuagem nas costas… =/
Mas tem sorvete de chá verde e de gergelim,deliciosos.Aliás as doceiras daqui do Japão são um capítulo à parte. A preparação dos wagashis é também uma arte de delicadeza e precisão a base de ovos,feijão, arroz e cereais dos mais diversos tipos. Verdadeiras esculturas servidas em celebrações ou simplesmente como presentes, mas sempre representativos.
Outro capítulo aqui são as crianças. Parecem recheadas de geléia de azuki,com suas bochechinhas rosadas e olhinhos que dão sempre a impressão de estarem sorrindo. Não sebemos com certeza o que faz dessas crianças mamíferos tão fofos e apertáveis. E são muitos.
Já no uniforme escolar aqui existe uma contradição. O das meninas é completamente fetichista, com mini-saias e meias até os joelhos. Já o dos meninos parece uma farda militar preto e sem gola . Até ajuda a compreender porque eles crescem tão sisudos, dentro de ternos 99% pretos, e elas transformam-se em libélulas fashionistas. O curioso é que testemunhamos muitas delas casadas com estrangeiros, e praticamente nenhum deles na mesma situação.
Os idosos são igualmente meigos,mesmo os mais rabujentos.A face deles é de render um conto.Por exemplo, num dos inúmeros templos que visitamos, presenciamos um casal, onde ela fazia um retrato dele,no meio das ’sakuras’, segurando um galho cheio delas próximo ao seu rosto.No Brasil isso seria um consenso: – Coisa de viado!
Mas o homem japonês por sua vez convive com uma sociedade , infinitamente mais educada. Onde aprende a apreciar a natureza desde os preceitos religiosos e filosóficos, em casa e na escola. Então os mais velhos são, de uma maneira geral, expressões de uma vida inteira dedicada e simples.
Então aprendemos a dizer : – Brazil Kara Kimashita.O que significa :somos do Brasil.
Ah,meu Deus…. Se soubessemos antes o quanto eles conversariam conosco somente com essa frase mágica… Depois de dito isso, nem adianta tentar explicar que não falamos mais nada em japonês. É muito engraçado.
Arigatô Tokyo e Kyoto.