NAVEMUNDO

Somos caixas eletrônicos ambulantes !

Nosso hotel é realmente bastante ruim. O tal “breakfast” de que tanto falou o incansável vendedor do aeroporto, se resumiu a um punhado de feijões (daqueles enlatados no molho de tomate…), ovos mexidos, uma salsicha e duas fatias de pão e forma frios, acompanhados de manteiga e geléia. Mas nem tudo estava perdido… Ao lado numa mesa de apoio triunfava uma torradeira! Que quando usamos, deixou uma branca e fria e a outra completamente torrada…

Mas na estrada, com um orçamento para cumprir, nem tudo são flores. Disposição, criatividade e bom humor são ingredientes indispensáveis a um bom mochileiro, e ao final do dia, nossa mochila já estava com 10 saches de café com leite, cookies e dois muffins de baunilha comprados no mercado local a menos de três dólares. São 10 e meia da noite e nosso café de amanhã promete ser melhor!

O dia de hoje foi tomado, 80% por resolver questões importantes para nossos próximos meses de viagem. Precisamos de visto para entrar na Mongólia e fomo atrás do consulado. Chegamos ao endereço que encontramos na internet em mais de um site, e descobrimos que o endereço estava errado! Não era naquele prédio e sim (segundo a recepcionista que nos disse que já éramos o segundo somente hoje) num bairro bastante afastado, que de taxi custava perto de 40 dólares à viagem de ida e volta. Inconformado voltei a pesquisar na internet para ter certeza e até agora não sei ao certo onde fica o bendito consulado mongol na capital da Malásia. Amanhã ligo e tiro a dúvida.

As boas notícias do dia ficaram por conta de que encontrei um bom quarto privado em Ulaan Baatar, numa guesthouse muito bem recomendada. Bem localizada, oferece “free pick up” no aeroporto, cozinha equipada, acesso a internet, água quente e lockers por 14 dólares a diária! Além de operar vários tours no país e prestar ajuda a obtenção de vistos! Parece milagre, mas na verdade a maioria das guesthouses presta esses serviços (Visto e Tours) aos intrépidos mochileiros que se aventuram a conhecer a terra dos Hunus e de Gengis Khan . E falando em tour, eles estão se propondo a fazer um de 25 dias pelo país, passando por diversas cidades do interior, com acampamentos nos famosos Gers (que são aquelas barracas nômades circulares). O objetivo é chegar até a região onde será possível observar o eclipse total do sol, no extremo noroeste da Mongólia, divisa com a Rússia. Vamos ver, pretendo estudar bem o roteiro, pois temos a intenção de atravessar a fronteira pela Transiberiana, até Novosibirsk, para ver o Eclipse. Vou avaliar quanto isso vai me custar, uma vez que é notória a corrupção e burocracia dos oficiais russos para a obtenção do visto em Ulaan Baatar . Já vi de tudo, de 20 a 200 dólares americanos, por pessoa… dependendo da cara do freges , claro ! Talvez a camisa do Brasil que trouxe sirva para mais alguma coisa. Assim como um tipo de documento diplomático não oficial…

A tarde fomos até ao complexo comercial que abriga as famosas Petronas Tower e um enorme shopping Center chamado Surya KLCC . Estávamos atrás de tomar as doses de vacinas que faltaram de Hepatite A, B e Raiva. Sem maiores dificuldades, por 120 dólares, tomamos em uma única dose as vacinas de Hepatite, mas para completar a da Raiva, preciso de mais US$ 200. Amanhã pretendo conversar com meu irmão para avaliar a real necessidade, uma vez que já tomamos duas doses no Brasil.

E por falar em Índia, chegando ao aeroporto em Kuala Lumpur, um incidente deixou bem claro para mim como será nossa viagem por esse país tão radicalmente diferente. Saímos de Singapura sem usar um voucher de cinco dólares que ganhamos numa compra. Momento antes tinha avistado uma senhora indiana, vestindo um belo traje tradicional de cor alaranjada. Com a pele bastante escura e os cabelos grisalhos, aquela senhora me passou uma idéia de dignidade e respeito tamanha, que imediatamente fez lembrar minha avó materna – Saudosa Dona Fádua. A Juliana que estava com o voucher no bolso foi até a distinta senhora e perguntou se eles viajavam constantemente para Singapura. Diante da afirmação positiva, a Ju ofereceu o voucher para a Sra Indiana que de prontidão pegou e pediu mais um para cada membro dos seis acompanhantes de sua família!

Impressionante! Somos caixas automáticos ambulantes!

 

 

Orçmento apertado ? Vai para um Albergue !!!

Nossa primeira  noite em Kuala Lumpur . Chegamos em pleno feriado escolar , e a cidade esta lotada de turistas árabes com suas esposas de véu na cabeça, ou de corpo inteiro, como a que vi hj, num shopping Center acompanhada de seu marido de bermuda e chinela .

A primeira vista, K.L como é chamada a capital da Malasia, me pareceu menos limpa e menos organizada do que Singapura. De cara, no aeroporto fomos tomados de assalto pelos funcionários das agencias de turismo, literalmente caçando os turistas que atravessavam o portão de desembarque internacional .

O centro de informações turísticas não conseguiu me mostrar no mapa onde ficava o aeroporto, quanto mais dar uma lista de hotéis e albergues para que eu pudesse me livrar de um dos funcionário caçadores, ainda grudado ao meu lado, enquanto a menina ( que deveria saber lidar com turistas ) se esforçava para pronunciar algumas palavras em inglês . Com um endereço de hotel na mão, e um mapa da cidade, resolvi dar ouvidos ao insistente vendedor .

No final das contas, até que não foi um mal negócio . O hotel indicado pelo centro turístico custava 100 dolares/dia, e consegui um quarto com banheiro privativo por 35 dolares . Lógico que o primeiro preço beirava os 50, alías como tudo o que se compra aqui na Asia .

Não costumo reservar hotéis direto em aeroportos . Minha primeira experiencia foi em Bali, que nos levou para um hotel em frente ao memorial aonde tinha explodido a bomba de 2005 . No caso de Kuala Lumpur,  o hotel fica em frente a um presídio desativado, e o ambiente é bem ruim…..Mas tirando isso, a cama é boa , tem ar condicionado e fica a 5  minutos andando do metro . 

Minha opnião é que se o orçamento esta apertado, é melhor procurar por quartos privativos, ( pode-se alugar camas em dormitórios, mas como todo o equipamento que estou carregando, estou escolhendo sempre quarto privativo ) em albergues e backpackers . Mesmo que o banheiro seja compartilhado, o ambiente será preenchido por viajantes do mundo inteiro, onde se pode trocar experiências e conhecer pessoas fantásticas . No aeroporto, ( pelo menos até agora ) hotel barato é sinônimo de hotel ruim, com ambiente duvidoso ( especialmente em cidades grandes ) ao mesmo preço de um quarto com banheiro compartilhado de um albergue de viajantes . Como o que ficamos em Singapura .

Singapura Express

Nossa viagem agora entra em um período de transição, com passagens rápidas por Singapura , Malasya e Seoul, antes de chegarmos na Mongolia a tempo de assistir ao Naadam ( 2 dias de feriado com competições de Corrida de Cavalo, Arco e Flecha e Luta-Livre ). Precisamos nesse meio tempo, conseguir o visto de entrada na Mongolia, reservar nosso hotel, e planejar nossa viagem para a Russia, onde pretendemos ver o eclipse total do Sol, no dia 1 de agosto, que vai acontecer mais precisamente em Novosibirsk, no Sul da Russia .

Passamos 4 dias em Singapura e 4 dias em Kuala Lumpur .

Singapura é uma cidade moderna, limpa e organizada . Com leis rígidas e multas para todos os tipos de infração, Singapura tem uma das maiores taxas de execuções da Pena de Morte, por habitante, no mundo . Também é uma cidade bem cara . Uma garrafa de Tiger, a  cerveja local , (tomada num boteco daqueles que no Brasil toca Reginaldo Rossi e serve baião-de-dois), custa 6 dolares . Nos bares de frente para o rio na região dos Quays, um pint ( 500ml) custa no mínimo 12 . Se for Stella Artois sobre para 15 dólares .

Já sabíamos disso antes de chegar na cidade, e reservamos um quarto privativo num albergue por 78 Singapore dolares, o que dá aprox, USD 58 . Uma pechincha naquela cidade . Nosso quarto tinha ar-condicionado, mas não tinha janela . Além do quarto, podíamos usar a máquina de lavar, a cozinha e a geladeira, o que garantiu nosso café-da-manhã, com cereais, leite, bolos e tudo o mais que comprado no mercado é infinitamente mais barato do que comprado na bakery, cake house . E além disso, a localização era perfeita, a apenas 3 min. caminhando da estação do Metro . Se chamava Bugis Backpackers.

Uma das principais atrações turísticas de lá são as compras . Cidade consumo como nunca antes tinha visto . Nem em Hong Kong . Passeando pela Orchord Road, pudemos ver um shopping atrás do outro, numa sequencia interminável de mega-empreendimentos . Fora os que estavam em construção .

Para comprar eletronicos , o lugar mais famoso é a SinLim Square, algo como o paraíso do Law King Chaw . Parece a Galeria Pajé só que infinitamente melhorada,  com todos os seus 8 andares climatizados . É um enorme shopping de um quarteirão só de eletronicos . Notebooks, cameras, MP3, MP4, Desktops, tudo de última geração, são ofertados da porta das lojas pelos selvagens vendedores . Tipo :

- Hey, You !!! Came here !!! Cheap Price, Cheap Price !!!

Só que pra comprar lá vc tem que barganhar ! Tudo está no mínimo 30% ( no mínimo, hein !) acima e nào sei se tudo ali é verdadeiro . Dá pra comprar, por exemplo, lente de camera fotográfica com e sem garantia, sendo que essa última é metade do preço !!! Vai levar hoje freguesa !!!

Além das das compras , andamos pela Little India e China Town onde nos perdemos no meio das ruas abarrotadas de lojas e camelôs vendendo todo o tipo de coisa . Visitamos um templo Hindú bem interessante, bem como um templo Budista, lindo, com uma enorme roda de oração no telhado, observada por 10.000 pequenas estátuas de Buda . Nem preciso dizer que se trata do Templo dos 10.000 Budas . Me fez lembrar o templo dos 1.000 Budas em Kyoto, só que lá eram 1.000 estátuas grandes, forrando uma enorme sala com mais algumas entidades do Budismo japonês .

Também tiramos um dia para conhecer o Zoológico de SIngapura e o Jardim Botânico, com seu bem cuidado jardim das orquídeas . O Zoológico nem de longe se parece com aqueles animais tristes e confinados tão comum de se ver em zoológicos menores. Os projetistas fizeram direito e recriaram os ecossistemas naturais das espécies, em grandes áreas . COm excessão do urso polar….diga-se a verdade .. Fui lá decidido a ver o dragão de Komodo, que não pude ver na Indonésia  . Já o  Jardim Botânico é um enorme parque que abriga o Jardim das Orquídeas . Tem uma bela seção de orquídeas premiadas e outra de coloridas bromélias que valem a visita .

Como se dança em Bali ?

Saímos de Kuta e fomos pra Ubud . Estava ansioso para conhecer uma Bali um pouco mais próxima daquilo que eu imaginava . Sempre soube que não era assim uma lugar para poucos, inacessível, mas pizza hut, mc donalds, dolce & gabbana, já é demais !

Logo no caminho para Ubud, a paisagem começou a mudar e pudemos observar as vilas ao redor dos centros turísticos . Sem a maquiagem turística, Bali começa a mostrar sua cara simples , natural, com cara de vila  . A diferença para algumas vilas praianas do Brasil, é o exotismo dos costumes que não estamos acostumados, como as pessoas de sarongue, os diversos templos nas ruas, as oferendas por todas as partes, entre outras particularidades .

Ubud é a capital cultural de Bali . É aqui que a tradição da dança, da pintura, da música , da escultura, do batik ganha sua expressão máxima . A arte parece estar incrustrada no seio da sociedade, não como uma coisa especial e para poucos, mas como uma atividade cotidiana. Como disse a esposa de um pintor que conheci numa trilha entre campos de arroz , após eu elogiar um dos quadros :

- Quadros bonitos, mas bad business….Sem emoção nenhuma.  Nem sequer valorizou o trabalho do artista que no caso era seu próprio marido .

Ubud parece Parati, cheia de ateliers de jóias em prata e ouro, de pintura, de escultura, bons restaurantes, apresentações de danças tradicionais todas as noites….

No caminho para Ubud, conhecemos um casal de ingleses muito gente boa que passaram 2 dias conosco . O Steve , um ingles tradicional que adora cantar, e a Fauze, filha de paquistaneses , que faz com que não falte nunca assunto nas conversas .

Tivemos muitas experiências boas em Ubud . Fizemos uma caminhada pelos campos de arroz, no perímetro rural que foi muito interessante . Foi a primeira vez que vi de perto o modo asiático de plantar arroz, com seus terraços e canaletas por onde escorre a água e irriga todo o campo . Pudemos ver os camponeses trabalhando em belas imagens de campos verdes e chapéus de palha pontudos , se destacando bem no meio da plantação . No meio do caminho conhecemos um artista plástico e músico, o Nyoman ( que significa ser o terceiro em nascimento . Pela ordem : Wayan, Madê, Nymoan e Katut, sendo que I, na frente para homens e Ni na frente para mulheres . ), que nos ensinou um pouco como se toca o tradicional instrumento de bambu, que se assemelha a uma marimba . Foi muito legal a interação musical que tive, ali no meio do caminho entre os campos de arroz, aprendendo a tocar a marimba, sob os olhos atentos de um camponês mais idoso, que observava toda a cena .

Outro ponto alto, foram as danças tradicionais . Pudemos presenciar o Barong, o Legong, o Kecak e o Fire Dance .

O Barong é uma entidade do bem, representada por uma figura de dentes salientes e olhos saltados, com corpo repleto de  pelos .Metade Leão, metade cachorro é ele  quem protege as pessoas dos maus espíritos, representado pelo Dharang . A dança do Barong é a reprensentação de uma luta entre as duas entidades, vencida pelo Barong no final.

 A dança Legong é feita por duas dançarinas lindas e ricamente vestidas . Seus movimentos são idênticos, e caracterizados pela magnífica  expressão do olhar e pelo curioso movimento das mãos, onde nenhum detalhe é por acaso . Todas as duas danças, foram acompanhadas de uma orquestra de Gamelan, que é o estilo tradicional Balinês . Essa orquestra é formada basicamente por um instrumento parecido com uma marimba só que de metal, que emite um som afinado e metálico, acompanhado de tambores com peles dos dois lados, gongos e marimbas de bambu . Todos juntos, dão maior ou menor tensão as cenas, tendo em alguns momentos algum efeito hipnótico, realçando mais ainda seu caráter tribal .

Mas de todas as danças que vi, a Kecak Dance foi de longe a que me transportou diretamente para um filme do Indiana Jones, no meio de alguma tribo isolada, mesmo sabendo que estava assistindo um espetáculo turístico, que havia comprado minutos antes por 10 dólares o casal !!! No centro da roda um enorme candelabro com várias velas acesas, iluminando a penumbra proposital do ambiente . Em volta , aprox. 100 homens  sem camisa , com uma flor branca e uma vermelha de cada lado da orelha, entoavam persistentemente o tal : ( Fala-se quetchak )

- Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak Kecak, com as mãos para cima .

Numa espécie de coro algumas vozes entravam no contratempo, e ao fundo duas outras vozes narravam os acontecimentos com timbre agudo e arranhado, de aspecto sinistro. No meio da roda, dançarinas de expressão arregalada, contracenavam com seres símios, reis furiosos, ou homens pássaros ( o Garudá ) . Muito forte e interessante ao mesmo tempo !

Além da dança e dos campos de arroz, aproveitamos nosso tempo para aprender mais sobre a cultura Balinesa, que tem em Ubud sua maior expressão . A Juliana comprou um curso de Batik que não fiz, mas acompanhei de perto. É fantástico o que se pode fazer com o tecido, num processo onde deve-se pensar como um negativo de foto enquanto se está aplicando a cera e a parafina, para BLOQUEAR, onde a tinta vai ser passada, e assim montar os desenhos. Nesse dia, além de aprender o processo do Batik, ainda tivemos um relato sincero da vida de um artista balinês, o Nyoman Warta . Ele nos contou como decidiu largar a vida de trabalhador rural nos campos de arroz, criando e vendendo patos para pagar seu material de pintura e desenho . Como fazia dos galhos das árvores seus pincéis e da mistura do pó do carvão com água, seu grafite, para produzir desenhos em preto e branco, que vendia para comprar mais material e continuar com sua arte . Ainda, nos mostrou a pequena choupana em que dormia com os 7 membros da família, antes de construir sua casa com o dinheiro que ganhou vendendo Batik e suas pinturas . Foi interessante entender a maneira coletiva que eles constroem as vilas familiares, com uma casa para ele e a mulher, outra para os país, outra menor para as crianças e apenas uma cozinha para todos, o que segundo ele, impede que os familiares fiquem tempo demais na rua !!!