A primeira viagem que fizemos foi um roteiro de 8 dias pelo deserto de Gobi, no sul da Mongolia . O tour que pegamos incluía um motorista e uma assistente tradutora, que além de cozinhar nos acampamentos, resolvia uma série de questões práticas entre nós e as diversas pessoas que interagimos no caminho . Mesmo eu que sou um defensor da viagem independente, onde voce necessariamente resolve e planeja todas as questões, tenho que admitir que na Mongolia essa estrutura ajudou muito .
Nossos dias eram basicamente, dirigir entre um ponto e outro, conhecer os locais mais interessantes e procurar um local para dormir . Algumas vezes armávamos acampamento no meio do caminho, e outras dormíamos com as famílias nômades em seus Guers . Para ser mais exato das 7 noites, 5 dormimos em Guers e 2 dormimos em barracas . O acampamento era bom por ser tratar de lugares 100% selvagem . Estavamos só nós e um enorme céu estrelado . Mas a experiência com as famílias foi de longe um dos pontos altos de toda a viagem pela Mongolia .
O Gobi em si, não é muito parecido com nosso imaginário de deserto em geral . Em 95% do tempo , ele se mostra como uma enorme e plana estepe desértica, com vegetação rasteira ( pequenos arbustos com aproximadamente 10 cm do chão) . Tanto é que os pontos mais interessantes são justamente os que quebram essa monotonia na paisagem .

Enormes fendas e falhas nas rochas vermelhas formando impressionantes paisagens, estreitos cânions por entre montanhas que de tão altas impedem a passagem do sol, enorme dunas de areia que se movem com o vento e camelos desfilando ao redor . Essas pérolas são realmente interessantes e valem a pena toda a rigidez que é viajar por um terreno tão inóspito . Raramente encontrávamos água no caminho . Tomamos 1 banho propriamente dito em 8 dias . O resto foram rápidos banhos de garrafa plástica em
pequenos riachos e muito lenço umidecido. A viagem em si, vale por todo o contexto . As paradas nos vilarejos, as refeições, as noites com as famílias e seus hábitos .
Mas para destacar qual dos pontos “turísticos” mais gostei, foram o cânion de gelos eternos – Yolyn Valley e as “singing dunes” ou Khongor Sand Dunes .
O primeiro é um pequeno rio que corre por um vale esteito formando um cânion entre altas montanhas .De tão estreitos em alguns p ontos, impedem totalmente a passagem do sol , e na maior parte do ano pode-se encontrar gelo no meio do deserto de Gobi . Conforme fomos andando dentro do cânion, a visão daquelas montanhas ao redor foi ficando cada vez mais dramática e imponente . De repente, no meio do caminho uma pedra rolou e quase me acertou . Vinh
a de cima e quando olhei eram duas cabras selvagens, caminhando pela crista das montanhas . Simplesmente maravilhosas, com enormes chifres curvos formados por anéis, deram o ar da graça e tornaram nossa trilha ainda mais especial . Até por que não aparecem sempre, pelo que nos informaram depois .
No dia seguinte, decidimos ficar mais um dia e fizemos um passeio a cavalo, que para mim foi um dos mais espetaculares dos que já fiz . Em vez de andar pelo interior do cânion, decidimos cavalgar pelas montanhas em trilhas que os locais usam para ir de um ponto
a outro do vale . Foi simplesmente inacreditável andar a cavalo na crista das montanhas, em terreno
s realmente inclinados e acidentados . Ora estávamos no topo, ora estávamos na base das montanhas ! Fizemos um lanche num dos pontos mais altos de toda a cadeia de montanhas , para descer no fim do dia,

após 6 horas a cavalo, cansados e maravilhados com aquela experiência .
As dunas, ficam no extremo sul do deserto, e também o ponto mais longe do nosso roteiro . De lá rumamos novamente para o norte sentido Ulaan Batar que alcançaríamos 4 dias depois . No caminho para as dunas, pudemos ver claramente sua posição, no alto de um platô . Uma extensa e encharcada faixa de vegetação antecede toda uma cadeia de dunas de areia fina, formando um visual ainda mais exótico, com o verde e alguns animais pastando, e as enormes e imponentes montanhas de areia ao redor . São realmente grandes . Podem atingir facilmente 40 m de altura

. O guer que estávamos dormindo ficava atrás da área verde . Para cruzar essa extensão, montamos camelos ! Os animais são enormes e a “rédea”( uma faixa de couro gasto..) é presa num pedaço de ferro enfiado no nariz do coitado do camelo . No começo fiquei todo cuidadoso para não machucar o pequenino, mas quando percebi que ele estava começando a fazer o que queria, percebi que não era bem por aí . Principalmente quando vi a “guia” que era a filha mais velha da família, manejando com força a surrada faixa de couro . Entendido o recado, a graça do passeio estava no ritmo lento e sacolejante do andar, e nas vezes em que meu camelo coçava seu próprio nariz na primeira das corcovas, entortando o pescoço para trás, e soltando longos suspiros . Dava pra ver que claramente não queria estar ali…


Chegamos no pé das dunas e subimos com dificuldade e excitação aquela enorme montanha . Não foi fácil pois cada passo que afundava fazia o esforço render cada vez menos . Mas a vista compensava cada gota de suor que escorria da minha testa . O sol estava se pondo, e a luz oblíqua mostrava as formas arredondadas das dunas, em lindas imagens . Decidi ir sozinho até uma parte ainda mais alta e isolada das dunas . Lá de cima todo um novo vale de areia apareceu com diversas formações ainda intocadas, sem nenhuma pisada para distorcer a forma exata da paisagem . E ali em cima, na crista daquelas dunas, o vento começou a soprar formando uma fina camada de areia se soltando da ponta afiada das dunas, numa imagem difícil de esquecer .

De lá desci correndo em enormes pulos na encosta da montanha de areia . Pulos que de tão inclinadas que eram as dunas, me faziam sair por alguns segundos do chão, até enfiar quase que metade da minha perna na areia, preparando para um novo salto . Foi o fim de um dia glorioso, com o por do sol nas dunas, iluminando de dourado os Guers que seriam nossa casa naquela noite !
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