Passei 16 dias andando para percorrer 211 Km ao redor de uma das cadeias de montanhas mais famosas do Mundo . Famosa por que o Annapurna I, com seus 8098 m. de altura, foi o primeiro pico acima dos 8 mil metros a ser escalado em toda a história do alpinismo, por um Frances chamado Maurice Herzog, no ano de 1950 .
A trilha se chama Cirquito Annapurna . Se trata de um caminho ancestral usado pelos locais para se locomover de um vilarejo a outro, nessa região . Isso inclui passar pelo Thorung La, que é um passo de montanha que se ergue a 5416 m. de altitude !!! O que é muito, quando se pensa que acima de 3000 m., todos estão sujeitos a sentir o Mal de Altitude, causado pela falta de oxigênio para respirar .É 600m mais alto do que o MOnt Blanc na França e exige uma série de precauções e muita roupa de frio .
Deixei a Juliana no retiro de Yoga, e juntamente com o Sitaram, o bravo carregador que contratei em Kathmandu, deixamos Pokhara em um onibus local no dia 17 de outubro , e começamos a trilha a exatamente 800 m. de altitude, em Besi Sahar .

Basicamente, a trilha se divide em antes e depois de cruzar o Thorung La. Na primeira parte seguimos o vale do Rio Marsyangdi, subindo 4600 metros em dez dias . Depois do passo, descemos de novo até 800 metros, só que agora seguindo um dos vales mais profundos do mundo, carvado pelas águas negras do rio Kali Gandaki, até chegar a Naya Pull, de onde pegamos o transporte de volta para Pokhara . Essa trilha se faz geralmente em 16 a 20 dias . Nós fizemos em 16 ensolarados dias !!!
No começo, andamos em um clima quente e úmido, onde todas as montanhas são cobertas por florestas com arvores típicas de um clima tropical . A medida que fomos subindo, a vegetação foi mudando drasticamente . A 4 dias do Thorung La, já não se via mais as florestas, o clima mudou para seco e predominavam os pinheiros . Estavamos andando pelas estações ! Deixamos o verão do início da trilha e agora nos encontrávamos em pleno outono. Tudo estava indo bem, e me sentia forte e disposta para encarar o desafio maior da trilha .
Chegamos no acampamento base chamado Thorung Phedi no nono dia de caminhada, as 9 da manha . Nesse lugar, que se ergue a 4450 metros, só existem 2 lodges, de modo que decidimos acordar bem cedo e garantir nosso quarto . Passamos o dia inteiro descansando e se preparando para o dia seguinte .
E não era para menos . Se trata de subir 1000 metros de desnível, de 4400 para 5400 metros, e depois descer mais 1600 metros até Muktinah, que fica a 3800 m. Caminhar em altitude é extremamente cansativo . Falta oxigênio e existem os perigos do Mal de Altitude, que se forem ignorados podem ser fatais . Na verdade, todo o ano morrem 2 nessa mesma trilha , em sua maioria carregadores que sem experiencia e qualquer equipamento adequado, se sujeitam a esforços inimagináveis para aproveitar a temporada de turistas e fazer algumas Rúpias..
Tomamos café as 4 e meia da manhã e as 5 estavamos dando os primeiros passos montanha acima . A primeira hora foi incrivelmente inclinada , cansativa e fria . As 6 horas da manha, passamos por um alemão com um GPS, que nos mostrou que fazia ( fora o vento ) – 15 graus centígrados !!! Havíamos enchidos nossas garrafas com água fervendo . A essa altura estavam todas congeladas !!! 
O sol começou a nascer e o visual foi ficando espetacular, com o contorno das montanhas delineados pela fraca luz do sol que chegava, e a lua ainda brilhava, crescente e sorrindo para nós, como que dizendo que tudo estava bem e que chegaríamos com segurança .
Acertamos o passo , e com um passada pouco maior do que meus pés, andamos devagar e sem parar até o passo, que chegamos felizes as 8 e meia da manhã ! Passamos 40 minutos lá, andando na neve, e tirando as famosas fotos comemorativas ! Os nepaleses que estavam trabalhando nos grupos de expedições, a essa altura cantavam e dançavam, também felizes por terem atingido o ponto mais difícil da viagem . Agora, eram 5 dias seguidos de descida . Nesse dia, chegamos em Muktinah as 13:00 .
Daí em diante foi só descida . O ultimo grande esforço estava marcado para o penúltimo dia de viagem, quando subimos de novo a 3000. De altura, até Poon Hill, para assistir a um dos nasceres do sol mais espetaculares da minha vida . Poon Hill é um mirante de onde pode-se ver duas cadeias de montanhas . A do Dhaulagiri ( que tem 8…m. ) e seus irmãos menores, II, III e iV e toda a cadeia dos Annapurnas, terminando com o Machapuchare, o famoso fish-tail, que na minha opnião é uma das mais bonitas que já vi . A surpresa estava reservada para o final . Na noite anterior , em Ghorepani, aguardávamos o dia terminar para nos prepararmos para o último ataque, as 5 da manha do dia seguinte . Mas, estava tão absolutamente nublado, que todos já arrumávamos nossas desculpas para auto-consolo . Quando abri minha janela as 4 e meia da manhã e vi de cara a constelação de escorpião limpa na minha frente, acompanhada por uma noite linda e sem nuvens, percebi que Deus havia ouvidos as preces de todos que ali estavam, e soprou bem longe todas as nuvens que poderiam ficar entre nós e as montanhas.


A medida que o sol foi iluminando com sua fraca Luz amarela e rosada, somente as pontas das montanhas mais altas quando tudo ainda estava escuro, o espetáculo foi ficando completo, coroando majestosamente, o final de uma trilha que foi nada menos que perfeita e inspiradora !
No dia seguinte. Andamos todo o caminho de volta e as 3 e meia da tarde do décimo sexto dia de trilha estava em Pokhara para reencontrar a Jú , cheio de coisas boas e novas para contar !
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